Reflexões Televisivas

Por Gabriela Teles

Por não ser constante, ontem e hoje fiz algo que não costumo fazer: assistir à televisão.


Ontem vi um programa que se chama “O amor acontece”, em que 4 casais (por enquanto apenas vi o casal tradicional – homem – mulher) desconhecidos são colocados juntos em casas de férias para que se conheçam e vejam se o amor acontece.


Dessas experiências sociológicas e que na maioria das vezes são divertidas, torcemos pelo amor, pelo encantamento, pela esperança do encontro.


Hoje novamente liguei a televisão e estava passando neste mesmo programa, mas em um modelo diferente, em que havia comentadoras. E aqui começa o que me trouxe até aqui para expressar minha singela opinião.


A conversa girava em torno de um dos casais que iniciam a conversa às escuras, com vendas nos olhos. A conversa vai bem, porém o rapaz ficou muito decepcionado quando tirou a venda e viu a figura da mulher, pois, conforme ele disse no “confessionário” ela estaria acima do peso.


Até aí eu sinceramente não me choquei. Esse é o comum, apesar de sabermos que há uma construção social por trás disso, homens e mulheres (estas mais) estão sob os efeitos de uma sociedade que escraviza os nossos corpos.


O que me chocou foram os comentários das comentadoras, todas mulheres. Comentários que ponderam que as mulheres comuns e normais não têm o tempo nem a estrutura paramanterem corpos de revistas. (OK….)


E que muitas mulheres se esforçam e não conseguem atingir o corpo desejado, e que se ela faz a parte dela e ainda assim não consegue, deve ser desculpada e aceita. E aqui um sinal de alarme soou para mim.


Ora, nos esforçamos para entrar no padrão. A mulher que não se esforça, essa sim deve ser rejeitada.


Este é o cerne de toda a questão estética feminina: somos objetos sobre os quais se decide como devem ser, um “como deve ser” que muda ao longo da história e que tem apenas um objetivo: nos fazer sempre inadequadas, inseguras, ocupadas com o estético por obrigação. Uma mulher desleixada, que não se cuida, não se ocupa com o seu corpo, não pode ser perdoada.


Infelizmente ainda temos que continuar falando o óbvio, porque mesmo as mais atentas, no automatismo do cotidiano, repetem os padrões que nos foram ensinados.
E não interessa em que país ocidental estamos, a luta feminina, apesar de diversa em suas muitas nuances, é repetitiva, e estamos sujeitas à mesma sociedade patriarcal e masculina, também reproduzida por nós mulheres.


Não desejo atirar pedras em ninguém, mas apenas lembrar que a discussão não deveria perpassar por: “ela se cuida, se esforça, ou não”, isto não deveria ser uma questão. O corpo da mulher é como é, e ponto final. Eu, sonhadora da vida real, acredito que um dia não se discutirá as razões de ser/estar do corpo de ninguém. E, se me permitem ser audaciosa, em que o corpo não será nem questão.


Também lembro que já estivemos piores, quando falas como essa não levantaram nenhum alerta, seriam na verdade bastante progressistas. Portanto, não me resta hipótese que não a de acreditar em dias melhores no futuro, construídos nas pequenas reflexões e atitudes de hoje.


Gabriela Teles é brasileira, de Salvador (BA), e advogada em Portugal. Feminista de bastidor e de palco, descobre e vive diariamente a potência que é ser mulher

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